POR maneto, 02 jul 2012, 11H30

FOGÃO A LENHA

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Luiz Gonzaga, Cabra guloso

O Rei do Baião, que neste ano completaria cem anos de vida, sentava-se à mesa com o mesmo entusiasmo com o qual puxava o fole da sanfona

Por Cláudio Fragata // Foto da abertura e das receitas Luiz Henrique Mendes

Luiz-GonzagaCom Catamilho no zabumba e Zequinha no triângulo, Luiz Gonzaga foi o criador do primeiro trio de música nordestina

O cantor, compositor e sanfoneiro Luiz Gonzaga do Nascimento, nascido em 1912 no município pernambucano de Exu, tinha um vozeirão. Falava alto, não parava quieto, era risonho e brincalhão. Até morrer no Recife, em 1989, aos 76 anos, amava o forró sobre todas as coisas. Para tocar sanfona, ia até o fim do mundo, o que deixou registrado nos versos de Vida de Viajante: “Minha vida é andar por esse país, pra ver se um dia descanso feliz.” Tanta energia precisava de “sustança” e comer fazia parte do joie de vivre do Rei do Baião. Pratos da culinária popular nordestina integravam sua dieta habitual, como paçoca de charque com farinha, farofa de cuscuz ou purê de macaxeira, mas ele nunca escondeu a preferência pelo Baião de Dois, a ponto de o prato servir de tema para um de seus maiores sucessos, com letra escrita pelo parceiro histórico, o cearense Humberto Teixeira (1915-1979):

Capitão que moda é essa, deixe a tripa e a cuié /Home não vai na cozinha, que é lugá só de mulé /Vô juntá feijão de corda, numa panela de arroz /Capitão vai já pra sala, que hoje têm baião de dois /Ai, ai, ai, ó baião que bom tu sois /Se o baião é bom sozinho, que dirá baião de dois!

O grande mérito de Luiz Gonzaga foi colocar o Nordeste no circuito musical brasileiro, o que conseguiu fazer com o baião, gênero inventado por ele e Humberto Teixeira. O termo já existia tanto como nome do prato tradicional da culinária sertaneja, que leva arroz e feijão cozinhados juntos, quanto de uma dança com direito a umbigadas. E também, segundo Luís da Câmara Cascudo, para designar a sequência rítmica e melódica executada pelas violas enquanto os cantadores ganham tempo para improvisar os versos do repente. O que a dupla fez foi modernizar e estilizar esse pequeno trecho musical dos desafi os, deixando-o mais atraente aos ouvidos urbanos. Em 1949, não havia rádio de norte a sul do país que não tocasse Baião, a segunda parceria de Gonzaga e Humberto, e um autêntico manifesto do novo ritmo:

Eu vou contar pra vocês, como se dança o baião, /E quem quiser aprender é favor prestar atenção.

Luiz-Goznaga Gonzaga cresceu na fazenda da Caiçara, no sopé da Serra do Araripe. Teve infância de menino pobre, “sem escola, sem gordura, mãe puxando enxada; se o inverno vinha bonzinho, a gente até melhorava a panela”, contou ele, anos depois, para a biógrafa Dominique Dreyfus, autora de Vida de Viajante: a Saga de Luiz Gonzaga (Editora 34, São Paulo, 1996). A tal melhoria na alimentação se dava na Semana Santa, quando a família colhia vagens e outros produtos do roçado nos fundos da casa e começavam as trocas com os vizinhos: “Vinha um e oferecia queijo coalho; mãe pegava o queijo, dava um jerimum, um feijão verde…” Mesmo depois de se transformar no Rei do Baião, o que aconteceu na segunda metade dos anos 40, ele não abandonou o gosto pelas iguarias do sertão. Dominique conta no prefácio do livro que os dois meses de 1987 que passou na companhia de Luiz Gonzaga, em Exu, foram regados a comilanças sertanejas, “que me deixaram o estômago alucinado e a balança desgovernada”. O festim começava logo pelo café da manhã, à base de macaxeira, cuscuz, banana da terra frita, mamão, melancia, “café bem fraquinho” e continuava ao longo do dia. A bordo de uma Veraneio, ela rodou com o artista por toda a região, do Crato a Bodocó, de Juazeiro a Ouricuri, parando em todas as farmácias – “Gonzaga adorava comprar remédio” – e entrando em todos os restaurantes do caminho – “Gonzaga adorava comer”. Durante sua profícua carreira de compositor, a comida foi tema de inúmeros sucessos. Em 1947, gravou Feijão com Côve para o carnaval daquele ano, uma parceria com Jeová Portella, que já levantava os ânimos do público nos programas de auditório nos quais Gonzaga se apresentava: 

Ai, seu generá, / feijão com côve que talento pode dar? / Cadê a banha pra panela refogá? / Cadê açúcar pro café açucará? / Cadê o lombo, cadê carne de jabá? / Que sem comida ninguém pode trabaiá.

O Departamento de Polícia, que fazia a censura dos programas de rádio, entendeu – devemos reconhecer a perspicácia – que o “generá” da letra era uma referência ao presidente da nação, general Eurico Gaspar Dutra, e proibiu a execução da música por considerá-la subversiva. Gonzaga só pode gravá-la depois de fazer algumas alterações nos versos e no título. A comida voltou a ser tema no xote Eu Vou pro Crato, em parceria com José Jataí, gravado em 1963:

Eu vou pro Crato/ Comer arroz com pequi / Feijão com rapadura / Farinha do Cariri. 

Luiz-Gonzaga A alimentação era assunto sério para o Rei do Baião, que se preocupava tanto com o filho – o também cantor e compositor Gonzaguinha, que se alimentava mal – quanto com a qualidade da própria comida, não importando se fossem pratos típicos nordestinos ou iguarias de restaurantes sofisticados. A biógrafa Dominique Dreyfus revela que, mesmo sem saber cozinhar, ia reclamar diretamente com o cozinheiro quando a comida estava fria, mal temperada ou malfeita, e ainda tinha o topete de dar conselhos culinários. “O lado social da comida também era sumamente importante para o sanfoneiro”, escreveu ela. “Comer com o outro, compartilhar a refeição, era sua maneira de o homenagear e também de conhecê-lo, de sondá-lo”. O jornalista Assis Ângelo, autor de Eu Vou Contar pra Vocês (Editora Ícone, São Paulo, 1990) guarda a mesma lembrança de Gonzaga. Depois de entrevistá-lo para alguns jornais, tornaram-se amigos. Sempre que vinha a São Paulo, o sanfoneiro ligava convidando-o para comer e jogar conversa fora:Luiz-Gonzaga“Gonzagão comia bem pra caramba”, recorda. “Íamos ao restaurante Andrade, no bairro de Pinheiros, onde ele podia saborear a boa comida nordestina. Pedia escondidinho de entrada, depois algum prato mais substancioso, como rabada ou carne seca, só rejeitava buchada.” Gonzagão gostava de mesa farta. A comemoração de seu aniversário era sempre uma festança tão apoteótica, que virava notícia na imprensa. Generoso, seus músicos comiam o que ele comia, hospedavam-se nos mesmos hotéis que ele, e se era convidado para alguma boca-livre que não pudesse levar seu grupo, não ia. Por outro lado, quando não havia comida, não se avexava em pedir. Assis Ângelo conta uma história, ouvida do próprio Gonzaga, que ilustra esse tipo de situação: no auge do sucesso, o artista foi se apresentar “num fim de mundo” do sertão. A fome apertou e não havia restaurante no povoado. Vendo uma casinha humilde, mas acolhedora, Gonzaga resolveu bater e pedir comida para ele e seus músicos. A dona da casa abriu a porta com uma suculenta manta de jabá nas mãos. Os olhinhos do sanfoneiro brilharam, mas a alegria durou pouco. Ao reconhecer o Rei do Baião, a mulher colocou a carne debaixo do braço e correu para beijar e abraçar o ídolo. Gonzaga aceitou a demonstração de afeto, mas desistiu do banquete. “Jabá com sovaco não dá”, reclamou ele, enojado, e prosseguiu seu caminho de barriga vazia.

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